Sustentabilidade e Economia

Será possível conciliar sustentabilidade e economia?

Deparamo-nos com o paradoxo (e certos mitos) do dinheiro, e a maior armadilha da forma como dinheiro está inserido na nossa sociedade:

Não consegues viver com ele, mas também não consegues viver sem ele.

E entramos neste paradoxo que nos deixa… sem dinheiro.

É o carrocel:

  • precisamos de dinheiro para viver,
  • a busca de dinheiro leva-nos a maior parte da nossa vida (40 anos até à idade da reforma, em prestações de pelo menos 8 horas diárias),
  • acabamos por não viver a vida que queremos porque precisamos de ganhar dinheiro,
  • o dinheiro gasta-se rapidamente e sem fazer o que precisas que faça,
  • e lá vamos nós outra vez à busca de dinheiro, sacrificando tudo o resto.

O Paradoxo do dinheiro na nossa sociedade: a maior parte de nós dá voltas e voltas e acaba no mesmo sitio,

Quantas horas por dia dedicas a ganhar dinheiro?

Vale a pena o tempo e esforço pelo dinheiro que ganhas?

Quantas oportunidades para viver a vida é que já te negaste porque precisavas de ganhar dinheiro?

Quantas decisões já tomaste únicamente devido às tuas possibilidades financeiras?

É possível que 99% das tuas decisões não foram tomadas por ti – foram controladas pelo dinheiro. Sentiste-te forçado a tomá-las da forma que tomaste por causa do dinheiro… ou a falta dele…. ou o medo de o perder.

Está na hora de desmistificar o dinheiro.

Como seguir uma vida livre, sustentável, e ética, se não nos conseguimos desligar no “flagelo” do dinheiro? Será Possível conciliar uma vida em harmonia com a Natureza com a “sombra  negra do dinheiro” que paira sobre todos nós?

Um dia, a minha irmã Bia conta-me um episódio que aconteceu na Internet.
Ela recebeu uma mensagem de uma pessoa que dizia:
“Eu odeio dinheiro e todo o mal que causa neste mundo. Não preciso de dinheiro para nada, sou completamente auto-suficiente. Como te atreves dizer que dinheiro (querê-lo e ter muito dele) é bom? Temos que viver sem precisar de dinheiro – só assim vivemos de uma forma auto-sustentável e off grid”.
A minha irmã colocou então a seguinte questão: 
“Se não precisas de dinheiro para nada, e é assim tão mau, como pagas a Internet que estás a usar para falar comigo? Com galinhas?” 
Ao longo da conversa, a Bia descobriu que esta pessoa afinal PRECISAVA de dinheiro, apenas não o tinha – estava a viver em casa dos pais e a Internet era paga por eles.
“Não te iludas – ser auto-suficiente, ou viver de uma forma sustentável, não tem nada a ver com viver à custa do dinheiro das outras pessoas, ou viver pobre, em escassez – dinheiro não é mau, nem é bom – é o que fazemos com ele.
 

De certeza que muitos de nós compreendemos tanto um lado desta conversa, como o outro.

E se, como eu, sonhas com aquele mundo idilico em que não existem os flagelos causados pela corrupção, abuso de poder e ganância, é compreensível que magoe um pouco reconhecer o facto que precisamos de dinheiro para sobreviver – uma realidade que muitos acham triste.

Mas não será pior ainda caminharmos em direção de uma distopia? Como a pessoa que, vivendo numa ilusão, nega que precisa de dinheiro para viver, alega uma vida auto-suficiente, quando realmente está a viver à custa do dinheiro e do esforço dos outros?

Realmente, e vais ver quando chegares ao final do artigo, o que faz o dinheiro ser um problema ou uma solução é a nossa relação com ele, a forma como lidamos com o dinheiro na nossa vida e nas nossas decisões do dia a dia.

Como pensamos que não podemos fazer nada sem ele, não pensamos noutra coisa…como uma droga, estamos sempre presos a ele, precisamos sempre dele, e pensamos que não podemos viver sem ele… e ao mesmo tempo parece ser a solução, mas a maior parte das vezes é o problema.

E de repente, a tua vida deixa de ser tua.

  • Não persegues os teus sonhos porque não tens dinheiro.
  • Não segues a tua carreira de sonho porque “não tem saída”.
  • Não viajas porque precisas de um emprego, para ganhar dinheiro, gastá-lo para sobreviver, e ficar na mesma. Mais uma volta ao carrocel.

 

Então, como nos podemos libertar deste paradoxo do dinheiro, se sem ele, não podemos sobreviver na nossa sociedade moderna?

Principio de Permacultura: O problema é a Solução.

Dinheiro é apenas mais um recurso, e, em permacultura, qualquer recurso que não esteja a ser devidamente utilizado num padrão ciclico é considerado poluição.

A nossa sociedade está poluída pelo dinheiro – existe excesso em alguns sitios, onde estagna e apodrece, e existe escassez em outros sitios, onde pouco cresce, e com dificuldade.

Mas a solução para “o problema do dinheiro” não é afastarmo-nos dele, mas sim diminuir a nossa dependência TOTAL nele, e melhorar como essa “energia” circula. Mais, uma vez, a permacultura ensina-nos algo valioso: não colocar todos os ovos no mesmo cesto. Ter fontes diferentes para adquirires o que precisas.

Dinheiro, tal como tempo, são apenas medidas de energia para conseguir algo a que te propões concretizar. E quando o dinheiro e o seu ciclo são usados de uma forma sustentável, acontecem coisas fantásticas, como já mostrou Bill Mollison, um dos pais da permacultura – ele sempre incluiu finanças como uma estrutura “invisível” CRUCIAL para o sucesso de qualquer habitat humano sustentável:

Mas, enquanto a nossa sociedade ainda revolve completamente em torno do dinheiro, nós podemos começar a desintoxicar desta dependência na nossa mente com apenas algumas novas ideias acerca da realidade do dinheiro.

Vamos lá melhorar a tua relação com a tua Carteira:

#1 Há que mudar o nosso relacionamento com dinheiro. 

O dinheiro faz um excelente empregado, mas um péssimo patrão.

Mudas o teu relacionamento com o dinheiro, e começas a ter resultados diferentes com ele.

Começa por deixar de tomar decisões exclusivamente baseado no extrato da tua conta bancária.

Tu és o patrão, não o dinheiro, por isso as decisões devem vir de ti, e não do dinheiro que te diz  instantaneamente “não podes”, sem olhar a mais nada, e sem interesse em soluções. Mais vale quem quer do que quem pode. Destranca a tua capacidade criativa de resolução de problemas e pensa paralelamente ao dinheiro que possuis.

#2 Dinheiro é apenas uma ferramenta. Não é a solução nem o problema.

Uma ferramenta serve um propósito e nada mais.

Uma pistola, ou seja, o objeto em si, não é bom nem mau.
Se estiveres a apontar a um alvo inanimado, não é mau.
Mas se estiveres a apontá-la a uma pessoa, já é.

Tu é que dás o significado às coisas, dependendo da utilização que lhes dás, e o resultado que atinges.

Com o dinheiro passa-se o mesmo. E como qualquer ferramenta, tem o seu lugar, altura e propósito próprio.

Se queres apertar um parafuso, e puxas do martelo, vais ter um problema.

Se usares a ferramenta certa, da forma correta, dar-te-á o resultado que procuras.

Em permacultura, dinheiro é uma ferramenta importantíssima, um elemento das estruturas invisiveis que ajudam o sonho daquele projeto, eco-casa ou bosque alimentar – é transformar dinheiro num legado duradouro que te beneficia a ti, à tua comunidade e a gerações futuras.

#3 A Falsa associação na nossa mente que diz que a falta de dinheiro é a raíz de todos os nossos problemas e a razão porque não conseguimos resolvê-los.

O Rui Gabriel contou-me uma história no outro dia de uma senhora que o abordou na Internet e se queixou que não podia fazer muitas coisas na vida dela, incluindo arranjar emprego, porque sofria de depressão. Imediatamente ele perguntou-lhe se ela ganhasse 1 milhão de dólares naquele momento, se ainda se sentiria deprimida.
Ao que a senhora, espantada, respondeu: Não.
Isso imediatamente mudou o paradigma dela, do que ela achava serem as limitações dela e a sua relação com o dinheiro. Apercebeu-se que a sua depressão não existia, mas que era antes um sintoma da sua relação doentia com o dinheiro (e da falta dele). Efectivamente, deu um passo na direção das mudanças que queria ver na sua vida – o dinheiro deixou de controlar o seu estado emocional e isso deu-lhe a clareza necessária de tomar as medidas para transformar a sua vida em algo melhor.

Se o teu problema é, por exemplo, falta de tempo para fazer o que queres, então a solução é arranjar tempo, não a falta de dinheiro. Faz disso uma prioridade, e não te foques no dinheiro como a solução milagrosa para tudo, nem o impedimento para seja o que for.

#4 Tira o dinheiro do pedestal e põe-o na caixa de ferramentas com todas as outras.

Como dissémos antes, dinheiro é uma ferramenta muito poderosa, mas mais uma vez, tem a sua altura de ser usada.

Como a senhora que negligenciou todas as suas outras capacidades porque estava tão focada na falta de dinheiro, não nos podemos esquecer que temos outras ferramentas essenciais para termos sucesso: tempo, competências, paixão, motivação, resiliência, ética, entusiasmo, conhecimento, iniciativa, etc…

Dinheiro ajuda nas nossas necessidades materiais, mas nós sabemos que não compra amor, não compra relacionamentos especiais e genuínos, não compra momentos singelos, não garante realização pessoal ou sucesso, e, como vemos pela infinidade de celebridades e o seus rastos de escândalos na vida pessoal, não garante felicidade.

Há muitas coisas que o dinheiro não consegue fazer por ti, portanto não dês mais importância a essa ferramenta sobre todas as outras. Cada uma tem o seu propósito.

#5 Usa as Outras Ferramentas.

Tens tempo, competências, capacidades, potencialidades únicas, motivação, objetivos, SONHOS, pessoas, relacionamentos pessoais e profissionais, etc, etc, ETC!

Usa e desenvolve as outras ferramentas, para não estares tão dependentes na ferramenta que é o dinheiro. Assim, mesmo que não tenhas muito dinheiro, sentes-te seguro que podes ir em frente na mesma porque tens uma caixa inteira de ferramentas ao teu dispor.

O que vai finalmente mudar a tua vida é deixares de pensar que dinheiro é um canivete suiço que resolve tudo, e começares a tomar decisões benéficas para a tua vida MESMO que isso não te dê mais dinheiro logo – porque, se dinheiro não é o mais importante da tua vida, mas sim o sonho que queres realizar com a sua ajuda, então não o trates como tal.

#6 Desapega-te Emocionalmente do Dinheiro.

Já percebemos que o dinheiro é uma ferramenta. Mas a maior parte das pessoas desenvolve um apego emocional ao dinheiro que não pertence.

Eu sei por experiência própria – principalmente quando, no inicio, decidi que queria levar uma vida mais simples e em harmonia com a Natureza. Ambos esses conceitos – dinheiro e vida “hippie” auto-suficiente, não pareciam encaixar.

Sentimos ansiedade quando precisamos de gastar dinheiro, temos medo de não ter dinheiro, achamos que abrir mão de dinheiro é uma ameaça para a nossa subsistência e agarramo-nos a ele -não só emocionalmente como literalmente – ou, para evitar essa dor de não ter algo que sentimos falta, mentimos a nós mesmos, dizendo que não precisamos dele.

Mas se nos agarramos emocionalmente ao dinheiro, não o podemos USAR da melhor forma para que possa gerar mais, para que possa fazer o que tu precisas que ele faça. Dinheiro é como água numa nora, só atua se a direccionares e deixares circular. Se não libertares a água, não esperes ver a nora a funcionar.

Esta é a principal razão porque a maior parte das pessoas fogem da palavra investimento, mesmo sabendo que investimento, seja de tempo, trabalho ou dinheiro, é necessário ao sucesso e à realização dos seus sonhos.

O objetivo real da pessoa nunca, ou raramente, é dinheiro.

A maior parte das pessoas não quer dinheiro pelo dinheiro em si, mas porque o dinheiro lhes permite realizar os seus objetivos REAIS, como poder dar a melhor vida à sua familia, poder seguir a sua carreira de sonho, poder dar os melhores cuidados a um familiar doente, poder passar mais tempo com a familia e amigos, poder ajudar pessoas e fazer a diferença, criar o estilo de vida que os faz feliz etc…

Estou numa tribo onde dinheiro não existe, e eles precisam de uma habitação nova. Se eu lhes der 10 000 dólares, eles provavelmente vão pensar que eu sou doida, “porque é que esta mulher de cabelo amarelo nos está a dar esta coisa esquisita com desenhos?” Não tem significado nenhum para eles, e portanto, não há apego emocional. Mas se, em vez disso, lhes construirmos a habitação, aí já tem significado. Provavelmente ficariam muito felizes. Mesmo que eu tenha gasto os mesmos 10 000 dólares para construir a casa, não é o dinheiro que tem significado, mas sim o sonho.

Quando nos desapegamos emocionalmente do dinheiro, estamos a focar-nos nos nossos objetivos reais, e o dinheiro é simplesmente outro recurso que estás a usar para lá chegar.

No fundo, é a tua visão do futuro com que sonhas que te vai dar o entusiasmo e a alegria que te motivarão para a frente, e serás muito mais objetivo nas tuas ações relativamente a dinheiro, porque deixaste de te associar emocionalmente a ele.

Saberás ver mais claramente, e sem medo ou ansiedade, que usando o dinheiro alinhado com as tuas prioridades na vida é o que vai pôr o dinheiro a trabalhar para ti e em direção ao teu sonho.

Tira-o do pedestal, e dá prioridade ao que é REALMENTE importante na tua vida. Aos teus objetivos reais.

Verás que o dinheiro deixa de ser tão importante, e deixarás de te sentir stressado ou ansioso quando pensas nele ou quando decides que está na hora de o pôr a trabalhar para o teu sonho.

BÓNUS:

A maior parte do rancor que guardamos em relação ao nosso sistema económico, e ao dinheiro, é realmente a nossa ânsia de ver um recurso com tanto Poder ser utilizado mais em prol do bem das pessoas e do planeta – e quando vemos pessoas a usar “mal” este recurso, faz deflagrar um fogo de ultraje e sede de justiça – de querer mudar para algo melhor.

Gostava que saísses daqui com uma pergunta:

Se afirmamos que faríamos diferentemente, e de uma forma mais sustentável, a aplicação desse dinheiro que vemos outras entidades investir de uma forma egoísta e prejudicial, isso não significa que pode ser a nossa RESPONSABILIDADE SOCIAL ganhar dinheiro com/usando os nossos principios éticos de cuidar das pessoas, cuidar da terra, e partilha de excedentes?

Não será hora de tomar responsabilidade por, a nivel individual, mudar o significado do dinheiro em algo que nos faça sentir mais livres, em vez de mais aprisionados? E como podemos fazer isso se não integrarmos o dinheiro como uma semente “joker”, que se pode transformar naquilo que precisas, em vez de ser a raíz dos nossos problemas?

O problema que enfrentamos – o dinheiro – é a solução. Apenas precisamos de entender o bem que pode fazer, e a nossa responsabilidade de o ganhar para poder transformá-lo nisso mesmo: Bem.

Quando vais parar de tomar decisões baseado no quanto tens na tua carteira?

O que vais fazer hoje para alavancar o teu estilo de vida?

Rute Gabriel

 

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